O documento foi encaminhado, na segunda-feira (3), aos gabinetes dos senadores Raphael Warnock, da Geórgia, e Adam Schiff, da Califórnia, e da deputada Hillary Scholten, de Michigan.
A escolha dos parlamentares também está relacionada às suas trajetórias religiosas. Warnock é pastor titular da histórica Ebenezer Baptist Church, em Atlanta, igreja que teve entre seus líderes Martin Luther King Jr. Schiff é judeu e presidiu o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes. Scholten, por sua vez, já atuou como diaconisa na LaGrave Avenue Christian Reformed Church, em Grand Rapids.
Para a jornalista Nilza Valeria, coordenadora nacional da Frente, a iniciativa está diretamente ligada à história do movimento, criado em 2016 para atuar em defesa da democracia e dos direitos.
“A atuação da Frente, desde 2016, é a defesa total da democracia e dos direitos legais. Não aceitamos interferência no processo eleitoral, pois somos um país soberano. A soberania faz parte da democracia, então, quando um líder de um país ousa nos ameaçar, reagimos com articulação”, afirma.
Segundo Nilza, a presença em Washington também procura aproximar a sociedade civil brasileira de setores da política norte-americana que conhecem pouco a realidade do país.
“O resultado de nossa ação foram parlamentares estadunidenses, que não tinham conhecimento real sobre o Brasil, votando a favor do Brasil na questão das tarifas, por exemplo. A nossa fé nos move na construção de um Brasil forte”, acrescenta.
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Comércio e sistema eleitoral
A carta concentra-se em três questões consideradas importantes para o período eleitoral. Uma delas é a política tarifária adotada pelos Estados Unidos em relação aos produtos brasileiros. Para a Frente, decisões comerciais entre os dois países devem obedecer a critérios econômicos e técnicos, sem serem condicionadas por disputas políticas internas do Brasil.
O movimento também manifesta preocupação com notícias sobre uma possível viagem de funcionários norte-americanos ao país antes das eleições. Entre os assuntos que seriam tratados estaria a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
A Frente solicita que o Congresso dos Estados Unidos desencoraje qualquer iniciativa que possa ser compreendida como tentativa de influenciar o pleito ou deslegitimar as instituições responsáveis por sua realização. “As eleições no Brasil são uma responsabilidade exclusiva dos brasileiros, conduzidas e julgadas por suas próprias instituições”, sustenta o documento.
O terceiro ponto diz respeito à participação de lideranças evangélicas no processo político. A carta afirma que alguns líderes religiosos têm usado púlpitos e plataformas para promover a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, embora não representem a diversidade política existente entre os evangélicos brasileiros.
Para o movimento, orientar fiéis a apoiar determinada candidatura com base na autoridade religiosa significa instrumentalizar a fé em favor de interesses partidários.
Articulação com a Igreja de Luther King
A agenda em Washington faz parte de uma articulação internacional iniciada há aproximadamente dois anos. A informação é de Lucas de Souza Martins, consultor internacional da Frente, historiador, especialista em História Americana e Estudos Globais e professor e pesquisador da Temple University.
“Esta é uma articulação programática que já tem cerca de dois anos, uma aproximação que nasceu da nossa fé evangélica e da luta por democracia, em diálogo com parlamentares americanos que também têm uma trajetória de fé ativa e valores em comum conosco. Essa carta é mais um capítulo de uma série de conexões contínuas que mantemos com alguns desses gabinetes”, explica Martins.
De acordo com a carta, desde 2022 a Frente procura aproximar lideranças brasileiras de organizações e parceiros nos Estados Unidos. Uma dessas experiências foi a colaboração com a equipe de Missões Globais da Ebenezer Baptist Church durante uma viagem missionária ao Rio de Janeiro.
O documento apresenta o movimento como parte de uma corrente do evangelicalismo brasileiro inspirada nos ensinamentos de Martin Luther King Jr. e comprometida com a dignidade humana, os direitos sociais e a democracia.
Evangélicos não formam um bloco político único
Outro objetivo da carta é mostrar que os evangélicos brasileiros não constituem um grupo politicamente homogêneo. Embora parte do segmento seja frequentemente associada a movimentos e pautas antidemocráticas, a Frente afirma representar uma expressão evangélica comprometida com a justiça social, os direitos humanos e a preservação das instituições.
O movimento propõe a criação de um canal permanente de diálogo com os parlamentares norte-americanos. A intenção é compartilhar análises da sociedade civil brasileira durante o período eleitoral e construir iniciativas voltadas à defesa da democracia.
Ao reconhecer a relação histórica entre Brasil e Estados Unidos, a carta pede que o Congresso norte-americano oriente o Executivo do país a evitar medidas que possam ser interpretadas como interferência nas eleições brasileiras. Para a Frente, preservar essa relação também significa respeitar a soberania e as decisões democráticas de cada nação.
por Redação 2JN – Revista Forum
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