Equipes de resgate e voluntários continuam trabalhando durante a manhã desta terça-feira (11/08) nas buscas por sobreviventes após um forte terremoto atingir a Colômbia.
Eles estão tentando aproveitar ao máximo as primeiras horas após o desastre, já que as chances de encontrar sobreviventes diminuem com o tempo. Sob a luz de holofotes e lanternas, os socorristas trabalharam durante toda a madrugada.
Ao menos 132 pessoas morreram e mais de 700 ficaram feridas após o abalo sísmico, que ocorreu na segunda-feira (10/08), ter sido classificado como o “mais forte da última década” pelo Serviço Geológico do país.
O tremor, que teve magnitude 7,4 segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS, na sigla em inglês), foi sentido em praticamente todo o país e em partes do Panamá e do Equador, incluindo a província de Pichincha, cuja capital é Quito.
No Brasil, moradores de Manaus, no Amazonas, relataram nas redes que também sentiram os tremores.
O abalo foi registrado pela manhã, por volta das 7h34 no horário local (às 9h34 no horário de Brasília). Dois tremores secundários, de magnitude 2,8 e 4,8, ocorreram após o evento principal.
É provável que o registro de mortos aumente, uma vez que há muitas pessoas presas sob prédios desabados.
Legenda da foto,Mais de 30 prédios desabaram em Cali, terceira maior cidade colombiana
Segundo o Serviço Geológico Colombiano, a profundidade do tremor foi de 103 km, considerada intermediária. O terremoto que destruiu partes da Venezuela e deixou mais de 6,3 mil mortos em junho aconteceu a apenas 10 km de profundidade.
O presidente Abelardo de la Espriella, que tomou posse na sexta-feira, declarou estado de calamidade pública na Colômbia, o que concede a ele poderes especiais para realocar orçamentos e coordenar rapidamente as agências para lidar com a crise.
“Estou indo para Bogotá para me concentrar na atenção à emergência que nosso país enfrenta”, escreveu em suas redes sociais. “Convoquei um Posto de Comando Unificado na UNGRD (Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres), de onde vou liderar pessoalmente os esforços para auxiliar as comunidades de Chocó, a Região Cafeeira e todas as áreas afetadas.”
O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou que doará US$ 15,5 milhões para ajudar a Colômbia e fornecer abrigo e alimentos às vítimas do desastre, além de ajudar a avaliar os danos causados.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) também anunciou que doará US$ 700 mil para ajudar no enfrentamento da emergência. Esse valor se soma à doação humanitária de US$ 500 mil já anunciada pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF).
O epicentro foi próximo a um município montanhoso localizado na Cordilheira Ocidental: San José del Palmar.
Mas o prefeito da cidade, León Fabio Marín Moncada, afirmou que, milagrosamente, não houve mortes nem feridos por ali, apesar das estradas de acesso terem sido afetadas.
A cidade possui população de aproximadamente 5.907 habitantes, segundo o Departamento Administrativo Nacional de Estatísticas.
A Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres (UNGRD) do governo colombiano confirmou que as províncias mais afetadas foram Chocó, Valle del Cauca, Risaralda e Caldas, incluindo as cidades de Quibdó, Cali, Pereira e Manizales — suas respectivas capitais.
O maior número de vítimas está concentrado em Risaralda, na região cafeeira da Colômbia.
Pereira, a capital do departamento, sofreu graves danos e as equipes de resgate continuam buscando sobreviventes.
Vídeos verificados pela BBC mostram pelo menos um prédio desabando na Plaza Bolívar, a principal praça de Pereira. É possível ver a poeira e os escombros espalhados por uma área aberta, onde estavam muitas pessoas.
Autoridades locais registraram pelo menos 40 mortos na região metropolitana da cidade, com 65 prédios desabados. Acredita-se que haja pessoas presas em 15 deles.
Em Cali, cidade localizada a cerca de 160 km ao sul de Pereira e a cerca de 200 km do epicentro, ao menos trinta e dois prédios desabaram.
A cidade, que há apenas três dias recebeu líderes mundiais para a posse presidencial de Abelardo de la Espriella, agora registra pelo menos 380 feridos e um sistema hospitalar em colapso.
“Quatro grandes instituições de saúde, com alta capacidade, tiveram que evacuar todos os seus pacientes”, afirmou a Secretaria de Saúde de Cali.
“É provável que nenhuma delas consiga reabrir nas próximas horas.”
Outras unidades de saúde estão sendo avaliadas para determinar se podem continuar funcionando.
Segundo informações divulgadas nas redes sociais, diversos edifícios nas regiões de Bogotá, Eje Cafetero, Tolima, Huila, Valle del Cauca, Manizales, Medellín, entre outros, foram evacuados como medida de precaução.
Jorge Eduardo Rojas, prefeito de Manizales, informou que pelo menos duas pessoas morreram no terremoto na cidade, localizada a cerca de 100 quilômetros do epicentro.
Uma das torres da catedral da cidade, construída entre 1928 e 1939 e considerada um dos ícones arquitetônicos da região, desabou.
O prefeito de Menizales acrescentou que “mais de 12 prédios” e “mais de 20 casas” foram total ou parcialmente destruídos, e relatou vazamentos de gás e eletricidade.
Segundo Rojas, a cidade mobilizou todos os seus recursos de resposta, mas reconheceu: “Estamos sobrecarregados”.
Ele descreveu a situação como “muito trágica e muito difícil” para a cidade.
De acordo com a Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres, não há ameaça de tsunami no Pacífico após este terremoto.
Legenda da foto,Torre da Catedral de Manizales tombou com o terremoto
A Autoridade de Aeronáutica Civil confirmou à imprensa local que mais de dez aeroportos foram afetados pelo terremoto e que as operações foram suspensas em sete deles.
“Os aeroportos de Pereira, Manizales, Quibdó, Armenia, Cartago e Buenaventura foram afetados. Por razões de segurança, as operações aéreas nesses terminais permanecem suspensas até que os danos estruturais à infraestrutura possam ser avaliados”, informou a agência colombiana em seu primeiro comunicado oficial.
Em um segundo comunicado, confirmou que os terminais aéreos do aeroporto de Cali também foram afetados e suas operações suspensas.
As autoridades recomendam que aqueles com voos programados mantenham contato direto com suas companhias aéreas e não se desloquem aos aeroportos sem antes consultar os canais oficiais da Autoridade de Aeronáutica Civil.
Pessoas em cima de destroços em CaliCrédito,Joaquin SARMIENTO / AFP via Getty Images
Ajuda internacional
Os Estados Unidos foram um dos primeiros países a se pronunciarem em solidariedade à Colômbia. Em uma mensagem em sua conta no Twitter, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que “o governo Trump está acompanhando de perto o grande terremoto que atingiu a Colômbia”.
Rubio acrescentou que o país “está preparado para apoiar o povo colombiano e o governo do presidente Abelardo de la Espriella”.
Horas depois da publicação de Rubio, o governo americano anunciou que destinará US$ 15,5 milhões (cerca de R$ 80 milhões) para ajudar a Colômbia em ações de emergência, na aquisição de alimentos e na proteção e avaliação de danos causados pelo terremoto.
Também pelas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manifestou “solidariedade”.
“O Brasil permanece à disposição da Colômbia para prestar o apoio necessário”, escreveu.
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum também expressou sua solidariedade e ofereceu “todo o apoio que o povo da Colômbia precisar”.
“Estamos acompanhando de perto a situação, tanto por meio de nossa embaixada naquele país quanto por meio de nosso embaixador aqui.”
A Venezuela também ofereceu ajuda humanitária e o Equador colocou à disposição resgatistas.
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, ofereceu pessoal e equipamentos para os esforços de resgate após o terremoto.
“A Colômbia tem equipes de emergência e resgate nas áreas afetadas e confiamos em sua capacidade de responder a essa emergência”, afirmou em um comunicado à imprensa compartilhado por sua assessoria de imprensa nas redes sociais.
Ele acrescentou: “De El Salvador, estamos em contato e prontos para fornecer apoio imediato com nossas equipes de resgate, médicos, paramédicos, suprimentos ou qualquer outra assistência que nossos irmãos e irmãs colombianos considerem necessária”.
Após os terremotos de junho, El Salvador enviou uma missão à Venezuela composta por 300 socorristas e paramédicos, além de 50 toneladas de equipamentos e suprimentos.
Na Europa, o presidente da França, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também se solidarizaram com a Colômbia e ofereceram apoio.
Conexão ‘muito indireta’ com os terremotos na Venezuela
A localização da Colômbia na interseção de várias placas tectônicas a torna propensa a forte atividade sísmica e, portanto, a terremotos de alta intensidade.
Os terremotos são geralmente mais fortes ao longo das zonas de subducção (região do planeta onde duas placas tectônicas se chocam e uma placa mais densa mergulha por baixo da outra, afundando em direção ao manto terrestre), localizadas perto da costa.
Desde 1950, mais de 3.500 pessoas morreram como resultado direto de terremotos na Colômbia. O mais mortal ocorreu em 1999, quando um terremoto de magnitude 6,2 atingiu a Região Cafeeira, deixando 1.185 mortos.
Mais recentemente, no ano passado, um terremoto de magnitude 6,3 atingiu Cundinamarca. Não houve vítimas fatais.
O presidente da Sociedade Venezuelana de Geólogos, Feliciano de Santis, disse à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, que a ligação entre o terremoto que atingiu a Colômbia nesta segunda-feira e os ocorridos na Venezuela em 24 de junho “é muito indireta”.
“Na Venezuela e na Colômbia, compartilhamos a Placa Sul-Americana e a Placa Caribenha. Mas o que aconteceu na Colômbia foi que a Placa de Nazca ficou abaixo da Placa Sul-Americana”, explicou.
“A ligação entre os dois terremotos é muito indireta”, disse. “Não se pode afirmar que toda vez que houver um terremoto na Venezuela, haverá outro lá em seguida. Mas é todo um sistema de placas interconectadas.”
Ele explica que “é como a casca de uma tangerina que se rompe em vários lugares, e todas as partes estão interligadas. Talvez haja mais conexão do que pensamos, mas não podemos afirmar com certeza.”
O terremoto ocorrido na Venezuela deixou ao menos 6 mil mortos e 50 mil desaparecidos.