Para a crítica de cinema, roteirista e curadora Lorenna Montenegro, o saldo brasileiro não deve ser lido apenas pela ausência de vitórias.
“A gente já fez história também com essas indicações, com esse reconhecimento que o filme teve na temporada”, afirmou ao Brasil de Fato.
O principal revés brasileiro veio com O Agente Secreto, que saiu sem prêmio mesmo indicado a melhor filme, melhor ator, melhor seleção de elenco e melhor filme internacional. Na categoria internacional, o longa de Kleber Mendonça Filho foi derrotado por Valor Sentimental, da Noruega. Já Adolpho Veloso perdeu o Oscar de fotografia para Pecadores. Lorenna avalia que a campanha do filme brasileiro ainda assim deixou marcas importantes na temporada.
“O Agente Secreto foi muito aplaudido”, diz.
Na avaliação dela, o longa “sai como Cidade de Deus, sem nenhum Oscar mediante quatro indicações”, numa referência ao longa de Fernando Meirelles, que também terminou sua passagem pela Academia sem vitórias apesar de múltiplas nomeações.
Para a crítica, o desempenho de Valor Sentimental na corrida pode ter pesado na votação de filme internacional. “Valor Sentimental tinha nove indicações. Isso, no final das contas, fez a diferença pelo menos perante o corpo votante”, afirma. Ela pondera, porém, que o encerramento da campanha não deve ser tratado em chave de frustração simples. “Hoje é um dia para celebrar esses nove meses de campanha.”
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O balanço, diz Lorenna, também passa por pensar no que fazer com a visibilidade conquistada por O Agente Secreto. Em vez de reduzir a temporada ao resultado final do Oscar, ela defende que a circulação do longa seja lida como parte de um processo mais amplo de fortalecimento do cinema brasileiro.
“A gente precisa realmente capitalizar isso para que o cinema brasileiro seja cada vez mais pulsante e potente”, afirma.
Na leitura da crítica, o caso do filme de Kleber Mendonça Filho ajuda a reforçar a necessidade de ampliar esse espaço para além de nomes já consolidados no circuito internacional.
Ela diz ainda que o mais importante é observar o que a temporada deixa como acúmulo para os próximos anos.
“O que importa é que, no final das contas, a gente consiga olhar para esses momentos como uma temporada de premiações e extrair o melhor que é possível”, afirma. E completa: “Que bom que a gente tem um Agente Secreto, Ainda Estou Aqui e tantos outros filmes formidáveis.”
Vencedor da noite
O grande nome da noite foi Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson. Além de vencer melhor filme, o longa levou direção, roteiro adaptado, montagem, seleção de elenco e ator coadjuvante, com Sean Penn. Para Lorenna, o desempenho do filme era esperado, ainda que não necessariamente na dimensão em que se confirmou.
“Foi o grande vencedor da noite, como era de se esperar, mas talvez não pela quantidade de prêmios”, diz.
Na leitura da crítica, a cerimônia também acabou funcionando como consagração tardia de Anderson junto à Academia.
“O Oscar adora fazer isso: não premia um artista quando ele merece, mas, se ele espera uns bons anos, acaba sendo premiado pelo conjunto da obra”, afirma.
Já Pecadores, que chegou à noite com 16 indicações, teve um desempenho mais contido do que parte das previsões sugeria. O filme venceu em melhor ator, com Michael B. Jordan, fotografia, trilha sonora original e roteiro original.
Dirigido por Ryan Coogler, o longa se passa no Mississippi segregado dos anos 1930 e acompanha dois irmãos gêmeos que retornam à região para abrir um clube de blues. A partir dessa história, Pecadores articula horror, música e comentário social em uma narrativa marcada por racismo estrutural, violência supremacista e disputa em torno da cultura negra nos Estados Unidos. O filme também foi lido ao longo da temporada como uma obra sobre memória, ancestralidade africana e apropriação cultural.
“Das 16 indicações, Pecadores saiu com modestíssimos quatro prêmios”, resume Lorenna.
O ponto mais alto da cerimônia
Um dos momentos mais marcantes da noite veio com a vitória de Autumn Durald Arkapaw em melhor fotografia por Pecadores. Ela se tornou a primeira mulher a vencer a categoria no Oscar.
Para Lorenna, o prêmio teve um peso que ultrapassa o resultado individual da disputa.
“Foi histórico demais, muito significativo para a história do Oscar, para a história do cinema mundial e para a história das mulheres no cinema”, afirma.
A crítica também destaca o discurso de agradecimento da diretora de fotografia, que dividiu o prêmio com outras mulheres da indústria.
“Foi um dos poucos momentos em que eu realmente fiquei comovida nessa cerimônia.”
Outros sinais da noite
Além da liderança de Uma Batalha Após a Outra e do espaço ocupado por Pecadores, a cerimônia também deixou outros sinais sobre os caminhos do Oscar.
Amy Madigan venceu melhor atriz coadjuvante por A Hora do Mal, em um raro reconhecimento a uma atuação em filme de gênero. Frankenstein confirmou força nas categorias técnicas, com vitórias em direção de arte, figurino e maquiagem e cabelo. Já Guerreiras do K-Pop venceu em animação e também em canção original, consolidando o alcance do filme para além do público juvenil.
A noite também foi atravessada por manifestação política. Ao apresentar a categoria de melhor filme internacional, Javier Bardem defendeu a Palestina no palco e apareceu com um broche com a frase “No a la guerra”. A fala do ator espanhol se somou a outros sinais de que o Oscar 2026 manteve espaço, ainda que pontual, para posicionamentos sobre guerra, violência e direitos humanos.
Brasil fecha Oscar 2026 sem estatuetas: ‘A gente já fez história com essas indicações’
por Redação 2JN
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